“𝗣𝗲𝗿𝘁𝗼 𝗱´𝗢 𝗔𝗱𝘃𝗲𝗻𝘁𝗼 𝗱𝗼 𝗞𝗮𝗿𝗹𝗲𝗻𝗼 𝗕𝗼𝗰𝗮𝗿𝗿𝗼, 𝘁𝗼𝗱𝗮 𝗮 𝗮𝘁𝘂𝗮𝗹 𝗹𝗶𝘁𝗲𝗿𝗮𝘁𝘂𝗿𝗮 𝗯𝗿𝗮𝘀𝗶𝗹𝗲𝗶𝗿𝗮 𝗽𝗮𝗿𝗲𝗰𝗲 𝘂𝗺 𝗧𝗖𝗖.”
Sobre o romance O Advento, por Roberson Guimaraes
Creio ter sido Shopenhauer quem disse que o acaso é um poder maligno, no qual se deve confiar o menos possível. Por outro lado aquele que não deixa nada ao acaso raramente fará coisas de modo errado, mas fará pouquíssimas coisas. Dia desses fazendo o scroll aleatório no Twitter - mantenho minha recusa em chamar de X – encontrei esse tuíte em um perfil nomeado Obtemperar:
“𝗣𝗲𝗿𝘁𝗼 𝗱´𝗢 𝗔𝗱𝘃𝗲𝗻𝘁𝗼 𝗱𝗼 𝗞𝗮𝗿𝗹𝗲𝗻𝗼 𝗕𝗼𝗰𝗮𝗿𝗿𝗼, 𝘁𝗼𝗱𝗮 𝗮 𝗮𝘁𝘂𝗮𝗹 𝗹𝗶𝘁𝗲𝗿𝗮𝘁𝘂𝗿𝗮 𝗯𝗿𝗮𝘀𝗶𝗹𝗲𝗶𝗿𝗮 𝗽𝗮𝗿𝗲𝗰𝗲 𝘂𝗺 𝗧𝗖𝗖.”
A ironia fresca e o sarcasmo da frase chamaram minha atenção. O nome suigeneris do autor também. Eu nunca havia ouvido falar em Karleno Bocarro nem em nenhuma de suas obras. Com um clique na loja da Amazon encontrei o livro em preço promocional e sem qualquer outra informação decidi comprá-lo. Depois da compra fiz uma busca rápida e descobri que Bocarro é filósofo e historiador pela Universidade de Humboldt em Berlin. Bem, pensei, há esperança. O livro chegou em menos de 24 horas (é cada vez mais impressionante a logística da Amazon) e li o primeiro capítulo para ver em que senda estava me aventurando. Gostei do que li. Como estou atravessando a releitura da Montanha Mágica de Thomas Mann, resolvi utilizar o livro de Bocarro nos intervalos dos discursos dialéticos entre Setembrini e Nafta para o diletante Hans Castorp (considero essencial ler vários livros ao mesmo tempo, a fruição parece ser alargada).
Veredito: o livro de Bocarro é bom, muito bom. Vamos a algumas considerações sobre ele.
Uma parte importante do romance brasileiro vem sendo atravessada por procedimentos de autobiografia e autoficção, pela centralidade das “escritas de si” (inclusive quando o texto é ficcional, mas sinaliza pacto autobiográfico por paratextos e estratégias de enunciação). Talvez a culpa seja de Knaussgard e Annie Ernaux. Mas divago. Há também uma vertente forte (e de enorme sucesso comercial) que articula memória, corpo e heranças do passado como eixo de conflito e de reposicionamento do sujeito, frequentemente mobilizando vocabulário e problemas associados aos estudos decoloniais.
Bocarro – em paralelo ao que chamarei de romance mainstream brasileiro contemporâneo – situa-se com um texto de feição alegórico-apocalíptica (urbana, paranoica e moral), mais próximo da linhagem distópica e anti-realista e do romance de ideias. O Advento opera num regime em que o social não é primariamente encenado como testemunho identitário nem como ‘𝘱𝘢𝘤𝘵𝘰 𝘥𝘰 𝘦𝘶’, mas como clima metafísico-político: mal difuso, instituições corroídas, pressões do presente, angústia existencial e uma subjetividade que lê o mundo sob suspeita e saturação (aqui o centro estilístico é a atmosfera e a moralização do espaço, não a autorrepresentação.) O resultado é uma prosa que alterna blocos reflexivos e cena dialogal com bastante fala direta, o que reforça a sensação de choque de registros e de “montagem nervosa” que me lembraram alguns procedimentos de Pynchon (falo mais disso adiante). A lógica de Bocarro conversa com o uso do pesadelo (às vezes futurizado, às vezes deslocado) para denunciar o presente, com tendência a finais e visões sem promessa de recomposição e com insistência no corpo e no mal-estar como eixos de sentido. A diferença é que, em vez de especulação tecnológica ou worldbuilding e enciclopedismo - como em Pynchon - o romance parece preferir uma distopia teológica-existencial: o apocalipse como forma de percepção e linguagem.
O contraste não precisa ser lido como “contra” a literatura identitária e a decolonial, mas como uma escolha de mediação estética: Bocarro universaliza (às vezes até o limite do totalizante) a experiência histórica em figuras do mal, da noite, do destino, da corrupção e da angústia. Eu colocaria O Avento mais perto do romance que reativa o trágico político, o delírio conspiratório e a alegoria urbana. Isso o torna, paradoxalmente, “menos mainstream”, mas bastante contemporâneo: ele parece responder ao mesmo presente, mas por uma máquina formal diferente — não a do relato identitário, e sim a da paranoia moral e da antecipação do esfacelamento e da destruição.
O texto d´O Advento revela uma ambição literária alta, deliberadamente afastada da prosa funcional ou minimalista. O autor trabalha com uma escrita densificada, de frases longas, em que a observação social, o comentário psicológico e a imagem poética coexistem no mesmo período. Há clara aposta numa prosa de extração ensaística, herdeira tanto do romance psicológico moderno quanto de uma tradição latino-americana de crítica social incorporada à narrativa (pode-se pensar, em registro distinto, em Vargas Llosa, Sabato ou mesmo um Thomas Mann tropicalizado). O texto sabe que quer ser literatura e não teme o excesso controlado. A dicção é elevada, mas não arcaizante, com preferência por substantivos abstratos e adjetivação de carga simbólica. Há dois campos lexicais recorrentes e bem articulados: um corporal/sensorial e outro moral/existencial/político. Essa justaposição é uma força do texto: o corpo não aparece como mero cenário, mas como interface entre o mal-estar íntimo e a decomposição social. O léxico constrói uma atmosfera coerente de ruína, ameaça e clausura.
O autor demonstra habilidade na criação de imagens estruturantes do clima narrativo. Elas são ambiciosas, densas e pensadas para ecoar além da frase, criando um campo simbólico persistente. Em alguns momentos, a metaforização se aproxima do limite da saturação, sobretudo quando múltiplas imagens competem na mesma frase: “escorrendo das mesas como rasuras derretidas de um longo passado de frustrações”, por exemplo, é potente, mas excessivamente autoconsciente. O leitor atento percebe o gesto literário. Isso não é um defeito em si — mas exige ritmo e parcimônia estratégica ao longo do romance.
A sintaxe privilegia períodos longos, reflexivos, com intercalações psicológicas. O narrador frequentemente se aproxima do fluxo de consciência, sobretudo nos trechos de imaginação e culpa. A voz narrativa é claramente adulta, culta, interpretativa. Não se trata de uma voz transparente ou neutra; ela interpreta o mundo antes mesmo de mostrá-lo. Em certos momentos, o narrador se aproxima perigosamente de um tom sentencioso. Ao optar por essa escrita de forte carga interpretativa, o romance assume riscos claros: a possibilidade de saturação simbólica, a redução da ambiguidade em certos momentos e uma uniformização do ritmo reflexivo. Esses riscos, no entanto, parecem fazer parte do próprio projeto formal, que aposta na persistência do desconforto e na recusa de soluções fáceis. Lido sob essa chave, O Advento se apresenta como uma obra que exige atenção e disponibilidade crítica, interessadas em explorar os limites da consciência individual diante de um mundo percebido como moralmente esgarçado e discursivamente saturado. Trata-se de um romance que não busca conciliação nem síntese, mas que se afirma no atrito entre formas de pensamento, tradições culturais e experiências ordinárias — deixando ao leitor a tarefa de negociar seus próprios caminhos de leitura. Gosto muito disso.
A escrita incorpora referências explicitamente nomeadas e de forte valor simbólico — A Bíblia, Kierkegaard, Nietzsche, Shakespeare — que funcionam como atalhos de densidade: comprimem uma biblioteca de sentidos em poucas palavras e reposicionam o drama individual dentro de uma moldura teológico-existencial. O personagem principal, Aderbal Semei, compartilha o nome do benjamita que amaldiçoou o rei Davi e foi posteriormente executado por Salomão e aparece nos livros de Samuel e Reis. Os livros de Isaías e do Apocalipse (esse último principalmente) são referências fundamentais para a compreensão do texto: suas forças são visíveis nos trechos que exibem as cidades (São Luís e São Paulo) como sintoma; a política como palco de impotência; o corpo como índice de mal-estar, reforçados por um vocabulário onde o mal, a verdade e o absoluto se encontram.
Talvez eu esteja delirando mas percebi nos procedimentos de escrita uma familiaridade com Thomas Pynchon. Sem jamais aderir ao humor entrópico ou à exuberância maximalista de Pynchon, O Advento compartilha com ele um regime de alternância narrativa marcado pela circulação paranoica dos discursos, pela instabilidade dos ambientes e por uma sensação difusa de totalidade opaca que atravessa o íntimo, o político e o religioso.
Ah! mas sobre o que mesmo é o romance? De forma muito simplificada o enredo apresenta o anti-heroi Aderbal Semei, maranhense de Sâo Luís, professor de História, de mudança para São Paulo em busca da concretização de um amor.
Lá “objetos em desarranjo parecem vaticinar-lhe pragas quase míticas. Aka Laurência, a mulher que o amou, talvez o tenha abandonado e levado consigo o discernimento que ao menos permitiria a Semei acautelar-se quanto às linhagens de demônios que insistentemente cerram seus caminhos.” (esse trecho está na apresentação do livro feita pela Editora Sator).
Entre esses ‘demônios’ há um personagem satírico-luciferiano chamado Demis Margote. Margote é a figura mais espantosa e surpreendente do romance além de ser o código para a compreensão de seu sentido. O livro atravessa temas pesados como compulsão sexual, abuso sexual infantil, pedofilia, magia negra e a corrupção política maranhense. É um prato cheio (perdão pelo clichê).
O Advento, enfim, se inscreve numa tradição do romance que recusa a transparência, aposta no peso da frase e assume o custo de uma leitura exigente mas sempre fluida. O estilo revela um autor consciente de sua voz, com repertório simbólico sólido e clara intenção estética. Não é uma prosa que busca agradar. E isso, hoje, já é uma posição tanto literária quanto estética muito relevante.

